terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Boca-de-leão





O mais certo desta vida, é de que tudo fica e somente nós iremos daqui. Por isto esta terra não é nossa, Por isso nunca temos muita razão. Mas um bem que fazemos, é cultivar estas coisas que dizemos “ser nossas”, quando na verdade somos nós quem pertencemos à elas.
Minha família cultiva alguma flores, uma florzinha chamada boca-de-leão. É muito bonita, e realmente lembra uma boca, floresce na primavera, e uma única vez, após o pezinho de onde brotaram as vivas cores em pétalas, morrem.
Tudo aconteceu quando vimos alguns pés adornando o jardim de minha vó na capital, isso faz bons anos. Então minha mãe interessou-se e minha vó lhe deu algumas sementes, na verdade muitas sementes. Não acreditei a princípio que aquilo se transformaria em flores, porque nunca acreditei muito em sementes, mas aquelas minha vó quem tinha nos dado... Era mais confiável.
No dia seguinte minha mãe a plantou as sementes em uma caixa com terra preparada. Um mês após nasceram pequenas plantinhas, fininhas com folhas fininhas, muitas, muitas de verdade. esperamos mais um pouco, e a colocamos em nosso jardim, com terra úmida e preparada.
E um tempinho depois vieram as flores... Muitas em cada pé, nos muitos pés que coloriam todo jardim, e que minha mãe e meu pai se revezavam a regar para que não deixassem de vir. Eram de muitas cores, e também tem as que se fundem e formam diversidades mescladas... Eu as adoro, todos lá em casa as adoram.
As flores caíram se misturando a terra, os pés ficaram vazios, e secaram, foram ficando negros e tortos... Não nasceram mais flores. Descobrimos que ele era para uma vez só, todo o cuidado, a dedicação e afago valiam em única dose. Contudo nem tudo estava perdido, haviam bolinhas cheias das minúsculas sementes em cada lugar onde nascera uma flor. A colhemos, e colocamos em uma grande recipiente... As sementes haviam se multiplicado... Era agora o dobro do que o número que minha avó tinha nos dado. Repetimos todo o ritual, e demos um pouco de sementes para uma tia. Tudo aconteceu novamente, inclusive com ela. E pelo que soubemos, as sementes dela também se multiplicaram e ela deu para algumas pessoas. Estávamos espalhando alegria ao mundo.
O jardim de minha vó não existe mais, ela mesma também já partiu. E uns dias atrás, coloquei em sua capela, um vazinho com dois lindos pés de boca-de-leão roxo com branco (minhas favoritas).
Continuamos o ciclo de nossas vidas... As sementes num recipiente, plantamos em uma caixa, nascem, crescem, mudamos para o jardim, damos algumas, florescem, secam, se tira os corpos mortos, colhemos as pequenas cachopas com as sementes, e tudo acontece de novo. Esperamos ansiosos, e nos sentamos na área a contemplar sua beleza. Ver cor por cor, a mais alta, a mais baixa, a mais florida, mais pobre, e todas irmãs de uma vida só... Mas companheiras, fazendo o futuro, e mais do que nos pertencendo... Fazendo nós a pertencermos!


Douglas Tedesco – 12/2007

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

EU ERA MAIS IMPORTANTE !



EU ERA MAIS IMPORTANTE!


Devia ter uns sete anos, não mais que isso, criança, que não sabia conter suas vontades ainda. Minha mãe e meu pai ainda trabalhavam na extinta gráfica de nossa propriedade. O negócio dava pra nos manter sem passar necessidades, mas também não para luxos. Um dia, minha mãe, eu e uma amiga dela, prima do meu pai, a Nevinha fomos para Itajaí, para alugar vestidos elegantes para irem a um casamento, e também para pegarem um serviço muito importante para uma empresa amiga nossa. Já era de tarde quando estávamos com os vestidos em mão, e o serviço, que se tratava de um milheiro de folders a serem distribuídos em Tijucas. Porém no caminho aconteceu um acidente na BR, e ficamos parados no trânsito, durante horas... Estava frio e estava com fome, paramos perto do nada, bem ao lado dele,e mesmo com medo, as duas e eu entramos numa rua escura e deserta, com a indicação de que ali havia um lanchonete, realmente quase um quilômetro depois havia, e era um inferninho. Pensaram em voltar, mas já estávamos ali, e ainda que sob os olhares das putas, e indagação de maus encarados elas entraram comigo cheias de coragem, e comparam-me um salgadinho bilú, era só o que o dinheiro dava. Voltamos rápido, entramos no ônibus, e para livrar-me do frio, minha mãe deitou-me em seu colo e abriu a embalagem de folders, pegou alguns e me cobriu. O que diria ao dono dos folders? O que faria para suprir a falta daquele material, e a embalagem rasgada, como explicaria? Eu era mais importante que tudo aquilo, incontestavelmente, por isso, por nada do que eu precisei ela contestou em fazer, mesmo em condições impróprias e terríveis. EU ERA MAIS IMPORTANTE! E aqueceu-me muito mais o seu amor, o seu calor humano, do que aquele papel couchet sobre meu corpo. Muito obrigado. Mesmo não cabendo mais sem eu colo, precisando de muitos folders para me cobrir, sou eternamente grato. E estes dias, lembrando este fato, ela me corrigiu docemente: "Não filho, você não era mais importante, você É mais importante !