terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Querido Senhor Locutor



Querido Senhor Locutor:

Não querendo ser clichê, mas necessito escrever-te. Tampouco agora me importa ser clichê, daqui a algumas horas estarei morta mesmo, e qualquer impressão que passe será de certa forma bem vinda pela minha alma destinada a outro lugar.
Nunca conversamos muito, muito menos essas poucas vezes estenderam-se a coisas particulares ou íntimas, mas sempre falaste comigo em sorrisos, te mostrastes simpático sempre, e uma vez que tropecei em sua frente prontamente me estendeu a mão e não cai! Além de escreveres uma boa história, ter idéias incríveis e uma voz maravilhosa.
Poderia escrever para um parente, para qualquer pessoa da família ou um de meus grandes amigos, mas aproveito estes instantes antes do último suspiro para dar Adeus a você que nem pude ao menos contemplar com um decente oi, e a quem eu desejava que muito fosse um grande amigo.
Tudo aconteceu tão depressa, e conto contigo para que depois que leres isto, diga a todos que gostavam de mim, ou fingiam que gostavam, que já não mais resido entre os vivos. Para que isso saia bem feito conto como tudo aconteceu: estava eu indo para meu novo trabalho, o primeiro dia em meu novo trabalho, chefe de redação de um grande jornal aqui da nossa cidade, cargo que sempre sonhei desde que iniciei a faculdade de jornalismo, e que agora depois de formada e com experiência é tornou-se possível. no entanto numa contrapartida do destino, numa calçada limpa, ainda molhada e com espuma de sabão, me raptaram, era um seqüestro, me fizeram cheirar algo e nada mais vi, acordei nem sei quanto tempo depois, aqui. Não foram violentos, tampouco me trataram com educação. Chorei, me desesperei, não acreditava no estava acontecendo, cerca de horas depois ligaram para minha família, e contaram o que estava acontecendo, consegui ouvir, e até mesmo ver o choro de minha mãe... Chorei também, pediram um resgate alto, e falei nem cinco segundos com minha mãe, só disse que amava a todos, e arrancaram o telefone de minhas mãos. Não sei o que aconteceria, não tínhamos muito dinheiro, muito carinho era o que nos mantinha ricos. Estou num lugar sujo, é escuro, todo de concreto, mas pintado de creme, manchado, falhado claro, recebo comida três vezes por dia, emagreci bastante, tomo banho dia sim, dia não, me dão uma toalha, tem um chuveiro gelado aqui, e me dão um sabonete também. Sei que ficam me espiando por um buraco na parede, mas o que eu vou fazer? A sala não tem qualquer janela, mas tem um colchão, e muitas cobertas, muitas mesmo, pensei em me enforcar com algumas delas, mas tinha esperança de que saísse daqui sabe, e também não tenho coragem acho. Tem um quadrado, com um pequeno balcão, por onde colocam minha comida, este papel e esta caneta e todas as outras coisas, é fechado com uma portinha de ferro, aberto nestes momentos e só, pude notar nos poucos segundos que ele é aberto que trata-se de um grande corredor, cheio de portas como a minha, apesar de nunca ter estado numa prisão, me lembra bastante isso. Ganho uma garrafão de refrigerante cheio de água, só um por dia, tenho que passar com aquilo, e para passar o tempo pedi timidamente papéis e canetas, e aceitaram em me dar, deram até mesmo uma prancheta para apoiar as folhas sulfites, escrevi contos, poemas, e de tudo um pouco. Desconfiei que haviam mais pessoas seqüestradas aqui, mas não ouço nada. No começo gritava, planejava fugas, chorava muito, muito, e agora, segundo minha contagem, depois de um mês e meio, parece que me conformei. Pude então comprovar quando ganhei, junto com um almoço, um pequeno relógio com calendário também.
Eles não falam nos corredores, ao menos não ouço, não fazem muito barulho, e nenhum barulho vem de fora, por isso nem sei me situar, não só sei que estou na minha cidade porque chegou um bilhete dizendo... Eles são assim, preferem mandar bilhetes do que falar diretamente, e foi num bilhete há duas semanas que me disseram que minha família tinha conseguido o dinheiro e eu seria libertada... Me senti renovada, gritei, chorei de novo, até me mandarem parar fazendo ameaças. Bebi um pouco de minhas lágrimas, e lembre do mar, moro perto do mar, estou com saudade dele, de todos claro, e inclusive do senhor. Contei cada segundo, para cruzar a maldita porta de ferro que me separa do meu amado mundo, que construí com tanta dificuldade, que era tão perfeito e que estes infelizes tiraram de mim com tanta facilidade. Mas então faz dois dias, que entrou um grande homem, sujo encapuzado aqui, fiquei com medo, ele me disse bravo que tinham descoberto que eu era jornalista, e por isso decidiram me matar dali a dois dias porque se não quando saísse daqui iria fazer matérias e notas contando a todos sobre isto. Prometi, jurei por tudo que não faria isso, implorei, porque não quero morrer, mas não adiantou, e hoje daqui a pouco irão me matar, com um tiro e sem sofrimento. Falando isso, eles me deram um chute no estômago, e doeu muito... Desgraçados! Dói só de lembrar, está bem roxo sabe. Ah senhor locutor, é o tipo de coisa que jamais imaginei passar na vida, porque é tão triste, notei aqui como somos pequenos. E com a minha morte me concederam mais um direito, de escrever para alguém falando qualquer coisa, pela última vez. Me deram mais papel e uma caneta nova, dessas de ‘clic-clic’ de propaganda, mas era uma caneta nova, e disseram que levariam a quem eu quisesse, depois que estivesse já morta, jogada num lixão entre restos de comida e urubus. E decidi a escrever a você, porque hoje vou morrer e não quero guardar rancor de quase ninguém. O desejo de ser sua amiga era apenas para aliviar a tensão que você sabe muito bem que existe entre nós. Você nunca me aceitou em sua emissora de rádio, apesar de me conhecer muito bem, ser amigo da família, ter o poder em mãos, nunca gostou de mim. Agia sempre com falsidade. Porém, sempre em seus programas dirigiu inúmeros recados para todos os que gostava e que estavam distantes, você sempre me ajudou a manter contato com os que amo de longe, transmitindo os beijos, as músicas oferecidas e tudo mais que sempre disse no ar e você repassou a meus entes queridos. Por isso é que quero te agradecer, porque poderia estar escrevendo a meus pais, ou outros parentes de maior distância, porém a todos eles foi você me ajudou a manter os laços. Para provar que não tenho rancores, e que um dia ainda queria estar ao seu lado, falando noticias e tendo sua companhia de amigo é que escrevo-te senhor locutor, para que também lembres das inúmeras vezes em que isto foi possível só dependendo de você, e nunca aceitastes, nunca me desses uma chance... Agora é tarde, não quero que se arrependa, e passe subitamente a me idolatrar, tu que nem esperavas, e nem sabias destes meu sentimentos, mas tinha noção desta minha situação. Apenas seja melhor do que conseguires, porque isso faz milagres, e evita receber correspondências de pessoas que estão prestes a morrer. Ah, senhor locutor, estou em paz agora. Por favor, num último gesto de seu falso carinho comigo diga que amo a todos em minha casa quando receberes isto. Agora preciso encerrar porque estão abrindo a porta, é a hora marcada para eu morrer, estão chegando para me matar senhor locutor, então não posso mais escrever nem uma linha, me desculpa, mas tenho de morrer agora, (malditos), eles entraram, estão me olhando e deixando terminar isso, com uma arma em mãos apontada pra minha cabeça, eu não consigo mais escrever, e acho que estão sorrindo. Obrigada.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Para quem não faz Teatro!


Esse texto não é realmente necessário, mas como raramente sabemos o que é realmente necessário, automaticamente, e por conta própria, e dignidade infame ele se faz necessário para quem o assim pensar.Algumas pessoas costuram, outras participam de grupos de idosos, outras param nas alheias portas a fazer fofocas, e outras tantas fazem teatro. Para se fazer teatro não precisa ser necessariamente nascer com o dom correndo as veias, pois lembre-se que um pedreiro pode fazer um teatro, já que este também é o nome da construção. Todavia nem toda pessoa pode fazer teatro, todas deveriam ao menos tentar, sendo que um bom diretor percebe desde a primeira tentativa que aquela pessoa não irá dar certo, e o mais terrível de tudo é que algumas ficam tentando para o resto da vida sem qualquer evolução. Lembro-me agora de mais um ponto porque esse texto faz-se necessário: Muitas pessoas acham o teatro uma grande idiotice! Então, tem de existir pessoas que lutem por ele, porque afinal de contas se acabar tudo de uma vez fará muita falta! Pois as conseqüências dele não estão presentes apenas em um palco. Muita gente acha lindo, maravilhoso, é até mesmo um ato de extrema elegância social ir ao teatro assistir uma peça. É dividido da seguinte maneira: os ditos ricos, elegantes, intelectuais, vão á grandes teatros assistir apenas a peças de drama e conflitos psicológicos. Os ditos pobres, de classe baixa e ignorantes procurar assistir apenas ás comédias porque julgam que “de triste já basta a vida”, e a arte que fo...-se!E ‘desimportando’ as classes, dentro delas, são bem poucas as pessoas que reconhecem o verdadeiro trabalho do ator, diretor, do teatro material em si. A coisa toda não se resume ao momento da estréia, da compra do ingresso na bilheteria, sentar-se na poltrona e ver os atores falando coisas bonitas ou feias e fazendo caras e bocas. Muito menos o trabalho do ator se resume a inventar de ser ator, querer fazer uma peça, e subir num palco para matar sua vontade. A todo aquele que pretende ingressar na arte cênica, o primeiro passo é o teatro, que seja na escola, em uma associação de bairro, mas que seja! Depois então partir para um grupo maior, outro profissional e ir crescendo para alcançar seus objetivos. Mesmo que seu ideal seja trabalhar em frente a câmeras de TV ou cinema, ou ainda na publicidade, é importante passar pelo teatro, pois é ele quem dá o básico da noção de interpretação, da construção do personagem, do sentimento passado ao público através da fala e do corpo. Fazemos muitas coisas estranhas como os exercícios, por exemplo: pular sapinho, fazer caretas para alguém a sua frente, respirar forte, devagar, pausado, rápido, com diafragma, sem diafragma. Trabalhar as articulações, barulhos engraçados para aquecer a voz. Cada trabalho é no mínimo iniciado dois meses antes da prevista estréia, então começa um intenso processo de pesquisa de figurino, de palavras certas, de maquiagem, de gestos típicos, trejeitos, formas, acontecimentos, tudo o que mais se encaixe e deve ser mostrado no trabalho. Uma parte bem difícil então acontece com os diretores, que além de realizar a anterior etapa também tem de dar forma ao espetáculo, cada cena, cada diálogo, logicamente com a parceria e apoio do ator.Se a interpretação não estiver 100%, uma boa maquiagem e figurino sempre ajudam, se estiver 100%, melhor ainda. Nem todos sonham em entrar para a Globo e fazer Malhação. Jamais deve-se procurar fazer teatro para alcançar a fama, ela é consequência. antes de se subir em um palco muita água passa embaixo da ponte. Você deve ficar muito contente se não foe escolhido para protagonista. Leite de Colônia é horrível para tirar maquiagem. É encantador aqueles espelhos de camarim com lâmpadas em volta. Depois da peça temos uma terrível fome. Vários papéis passam por você antes da coisa ser definitiva. Não se pode espiar o público pelas cortinas, na coxia e no camarim deve haver total silêncio. Não se deve falar com uma pessoas que está prestes a entrar em cena. Os que sofrem de crise existencial por passarem por muitos personagens são minoria, casos raros. Assistimos muitos filmes, lemos e de alguma forma prendemos sobre fatos que não gostamos para poder fazer as coisas com perfeição. Deve-se aprender a ver no escuro, pois depois que começa o ambiente no palco e seus arredores é quase breu. Saber improvisar é imprescindível. Existe beijo técnico sim, é igual aos outros, o que muda é o que você tem na mente. Você muda completamente depois de começar a fazer teatro: Fica mais criativo, raciocínio rápido, melhor preparo físico, quebra tabus, rompe limites, livra-se de preconceitos, se aceita melhor, abre a cabeça para o verdadeiro mundo, para um lindo mundo. A gente tem técnicas para fazer muitas coisas que não parecem ser interpretação. A gente vê outra peça de duas formas: a crítica e a de espectador. Você realiza sonhos através da encenação. Vira pessoas que jamais imaginou ser. Aprende a encarar os fatos de frente, a olhar nos olhos, a ser mais verdadeiros e doar-se aos verdadeiros amigos e objetivos. Muitos artefatos não aparecem diretamente na cena, mas se faltarmos com ele aí sim o público nota que algo está em débito. Muitos acham um absurdo pagar R$ 15,00, R$20,00 para assistir a uma peça uma vez por mês, mas paga o dobro por semana para entrar em uma festa. É fascinantes os bastidores de uma peça. Devido á ousadia e coragem os atores muitas vezes são encarados como gays. Não deve-se comer durante um espetáculo. Alguns atores pisam no palco apenas descalços. Nem tudo é peça teatral, existem também performances, esquetes e outros tipos de arte cênica em palco, o que as faz é o tempo de duração. Usamos muitos verbetes do tipo: bife, pastelão, maior, caco, deixa, boca de cena, etc. É bem provável que as coisas são bem diferentes do que se ensaiou. Sim, somos todos loucos e não temos vergonha de falar em público, embora a maioria seja tímido em situações pessoais. Vivemos fazendo cena, e fazemos porque gostamos porque realmente somos loucos, loucos por teatro, esta arte maravilhosa!A quem quiser mais informações, estou a disposição! E a você que nunca fez, experimente!



Douglas Tedesco. 13/02/08